segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A casa amarela

A única lembrança daquela cidade que Manoela tinha era de uma casa amarela. Passaram-se muitos anos desde a primeira vez que estivera lá, mas o amarelo das paredes ainda era tão vivo quanto em sua memória.
De fato ela nunca pensou que voltaria ali. Quando prestou o vestibular para medicina torcia realmente para passar em qualquer faculdade que não fosse a de Mirandópolis. Tinha uma aversão terrível ao lugar.
Acabou indo estudar na capital. Passou de primeira na universidade federal e nem se preocupou em conferir outros resultados.
Agora já formada, quis o destino que o único hospital escola no estado em que poderia fazer a expecialização dos seus sonhos fosse o de Mirandópolis .Conformada organizou suas coisas e se mudou pra lá.
Era uma verdadeira tortura estar ali. Tudo naquela cidade a exasperava, até o ar pesava doidamente em seus pulmões, e seu coração parecia querer explodir no peito quando pensava que teria que viver ali por dois longos anos.
Apesar desse pequeno problema com a cidade a vida de Manoela até que ia bem. Estava satisfeita com o resultado do seu trabalho e estava saindo com um homem interessante.
Conhecera Carlos no hospital, ele era o médico chefe da oncologia e 20 anos mais velho que ela. Nunca tolerara os rapazes da sua idade, inseguros e vazios. O romance tornava a vida melhor.
Quanto mais sério o relacionamento ficava menos era o incômodo com a cidade. Tudo ali parecia mais suave, bonito, e depois de cinco meses de namoro aquela sensação ruim do tinha desaparecido completamente.
No final de setembro era seu aniversário e Carlos disse que tinha uma surpresa. Manoela imaginou que talvez ele fosse pedi-la em casamento. Não queria pensar nisso, sabia que era cedo, mas estava apaixonada e não conseguia controlar seus pensamentos.
Depois disso foram quinze longos dias de tortura. Tudo girava em torno daquela idéia, ela sonhava com vestidos e anéis e ficava suspirando pelos cantos do hospital durante o plantão.
No dia tão aguardado dia Manoela acordou cedo e foi direto para o salão. Passou horas entre cabelos, unhas e depilação. Ele foi buscá-la à noite e disse que iriam para sua casa. Ela ficou radiante, nunca tinha ido lá, realmente a surpresa era algo importante.
Quando chegaram ela não pode esconder a surpresa ao ver que Carlos morava na casa amarela das suas lembranças. Aquilo com certeza era um sinal, durante todos aqueles anos aquela imagem fora tão viva na sua mente e agora estava ali de novo, e o homem que amava morava lá.
Enquanto entravam Manoela pensava nas mudanças que faria ali depois do casamento. Definitivamente mudaria a cor das paredes, aquele amarelo era horrível. Durante o jantar sonhava com os filhos que iriam ter correndo pelo quintal, era sem dúvida a mulher mais feliz do mundo.
Foi só o ardor do corte, depois o sangue quente decendo pelo peito, lembrou do mal estar que sentiu quando viu a casa pela primeira vez anos atrás e de toda aversão que viera depois disso pela cidade. Afinal tudo fazia sentido.
Foram seis facadas no total, ela morreu na terceira.


Jô Caqui

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