sábado, 30 de julho de 2011

Cacos

Uma menina sentada no canto da sala. Ela abraça os joelhos com força e tenta não chorar.
Tinha a vaga lembrança de dias genuinamente felizes, quando sorrir era um movimento natural, e ela podia correr descalça pelo quintal com as outras crianças, sentindo o vento gelado de inverno mordiscar seu rosto. Nesse tempo ela passava horas deitada na grama olhando as borboletas que voavam desordenadas pelo céu que era seu.
Tinha perdido o momento exato em que as cores começaram a desbotar, e seus olhos começaram a enxergar o cinza dos dias.

Doía.
Latejava.

Era uma coisa constante, inevitável.
A menina deslizou a mão lentamente pela parede, apoiando seu peso nas palmas pequenas, enquanto obrigava seu corpo cansado a se erguer.
Na caminhada até o banheiro ela ia catando seus pedaços espalhados pela casa. Não era uma pessoa completa e nem podia ser.
- Ninguém era – repetia sempre pra si mesma, numa tentativa desesperada de se encaixar.

Não funcionava.

O contato do piso gelado do banheiro com seus pés descalços fez com que um arrepio fino percorresse sua coluna vértebra por vértebra, os ombros que já eram pesados demais se curvaram ainda mais. Agarrou-se a pia em uma batalha caótica para se manter em pé. Nunca fora tão difícil, mas ela persistia.

Uivava.

Lembrou das amigas dizendo que admiravam sua força, e um esboço de sorriso ameaçou aparecer. Achava divertido esse engano geral a seu respeito, essa imagem totalmente desconexa que ela construíra pouco a pouco pra se proteger dos respingos de lama que vinham de todo lado em sua direção.

Não era forte.

Também não era má, detestava quando as pessoas diziam isso a seu respeito. Só deixava claro o quanto elas eram incapazes de enxergá -la de verdade, era um julgamento tão óbvio que já se tornara monótono.

Mas não era boa.

Encontrou seus olhos perdidos no espelho. Eram dois grandes círculos perturbadores. Não gostava nada deles, sabia que todos os demônios que atormentavam seus pensamentos transpareciam por aquelas órbitas delatoras.
Começou a tremer. Os dedos foram se soltando um a um da borda úmida da pia, e as pernas começaram a fraquejar.

Queria convencer a si mesma que era feliz, que a vida era boa e valia a pena. Que podia ser bonito.

Um sorriso cheio de borboletas.

Respirou fundo e deixou que as lágrimas invadissem o seu rosto abundantemente. Era ela ali parada chorando no espelho, um alguém que quase ninguém via, tão cheio de dor que já se tornara vazio.

Silêncio.

A mulher ali parada, lavou o rosto pra remover os vestígios de verdade perdidos na sua pele. Penteou os cabelos, se maquiou. Escolheu dentro de si qual cara usar naquele dia chuvoso. Optou pela moça alegre e sorridente que era o seu personagem preferido em momentos assim. A alegria contrastava com a chuva.

Acendeu um cigarro.

Olhou para a garota bonita no espelho que não era ela e sorriu. Ficou feliz de enganar a si mesma.

Saiu de casa apressada pra não perder a coragem de viver. Se lançou na chuva e pode sentir por um momento que a menina de cabelos revoltos voltara. Mas foi só um instante de distração. A mulher desapareceu na multidão.

Não era boa,
nem má.

Era só uma menina assustada sentada no canto da sala, sozinha, tentando colar os cacos de si mesma com um punhado de cola.

Jô Stella

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Sobre morrer

Ela entrou no mar com a certeza que não voltaria.
Foram passos lentos, pesados como a dor que ela trazia, profunda como o oceano.
A água invadia seus pulmões e ela achava engraçado aquilo arder assim. - pior do que cigarro - pensou. Ainda pensava.
Diabos porque era tão difícil calar uma mente? Enquanto cada pedaço do seu corpo morria submerso seus pensamentos ainda vagavam incertos, por lembranças que ela queria apagar.
Desejava ardentemente a paz da morte. Nunca mais relações vazias e destrutivas, tinha cansado de sentir. Passara uma vida toda se mutilando, destruindo pouco a pouco cada pedaço bom que pudesse haver em si, cada amizade verdadeira que surgia.
Não conseguia se aprofundar, é doentiamente doloroso deixar que alguém te veja assim, despido de máscaras e pudores quando se tem tanta dor escondida por trás dos sorrisos.
Sentiu os braços dormentes e um leve formigar na ponta dos dedos. Abriu os olhos por um instante e pode ver as pessoas na praia, tinham notado o afogamento, precisava morrer logo antes que tentassem salvá-la.
Todo mundo tem o direito de se destruir, livre arbítrio permite essas coisas. Abriu a boca e mergulhou fundo, esperava não subir mais, queria ser devorada pelos peixes. Pensava neles comendo cada pedacinho do seu corpo morto e sorriu ao se imaginar livre daquele fardo.
Começava a perder a consciência, imagens desconexas da sua vida passavam diante dos seus olhos. - morrer era como todos diziam, lembranças e luz - uma última irônia para alegrar um moribundo.
Todo o nojo e desprezo que tinha por si mesma veio à tona de uma vez, estavam ali suas escolhas erradas e o ódio por todos aqueles que a fizeram sofrer, que brincaram com ela. Sua alma ia enfim explodir envolta em dor e água. Foi o ápice dos sentimentos.
Depois só a luz irônica.
E paz.
Acordou dois dias depois em um leito de hospital. Viu seu reflexo no espelho do quarto e chorou silenciosamente como só aqueles que não conseguem se libertar da vida podem chorar.
Quando as lágrimas secaram fechou os olhos e voltou a dormir com a certeza triste que voltaria a acordar.

Jô Stella

terça-feira, 5 de julho de 2011

Pensando em Você...

Tenho que adimitir que vez por outra me pego pensando em vc.. Remonto as imagens daquele dia que, para mim, será eterno. Algums vezes imagino como teria sido se realmente tivessemos seguido adiante com aquela aventurazinha. Talvez ainda estivesse aqui, ou não. Uma hipotese que podemos levar em consideração é o que algumas pessoas dizem de que nosso destino já está todo traçado quando nascemos. Outra hipotese é sobre aqueles que acreditam  em reencarnação devido a assuntos não terminados. Se este for o caso, acho que ainda nos encontraremos em breve. Levo a minha vida normalmente depois de aceitar verdades incontestaveis. Tenho conseguido fazer novas amizades. As de outrora também vem e vão algumas vezes. Estou vivendo num estilo Carpe Diem, um dia de cada. Claro que existem os dias de alforia em que eu me descontrolo e me perco em mim. Mas trato logo de me recompor para poder olhar melhor aos que estão ao meu redor e podem vir precisar de mim. Não curto viver num estilo egoista e egocentrista em que a maioria se encontra hoje. Acho que sou uma pessoa que tem costumes de outras épocas. Voltando a falar em reencarnação, pode ter sido a vida de um de meus antepassados. Vai saber. Só sei que sinto que é dessa forma que devo seguir com minha vida. Intercalando entre dias de calmaria e turbulentos. Assim levo a vida, aprendo com erros e novidades e agrego em mim um ser melhor para quem sabe um dia retribuir a vida tudo o que um dia ela já me deu de melhor!


by Luka