Uma menina sentada no canto da sala. Ela abraça os joelhos com força e tenta não chorar.
Tinha a vaga lembrança de dias genuinamente felizes, quando sorrir era um movimento natural, e ela podia correr descalça pelo quintal com as outras crianças, sentindo o vento gelado de inverno mordiscar seu rosto. Nesse tempo ela passava horas deitada na grama olhando as borboletas que voavam desordenadas pelo céu que era seu.
Tinha perdido o momento exato em que as cores começaram a desbotar, e seus olhos começaram a enxergar o cinza dos dias.
Doía.
Latejava.
Era uma coisa constante, inevitável.
A menina deslizou a mão lentamente pela parede, apoiando seu peso nas palmas pequenas, enquanto obrigava seu corpo cansado a se erguer.
Na caminhada até o banheiro ela ia catando seus pedaços espalhados pela casa. Não era uma pessoa completa e nem podia ser.
- Ninguém era – repetia sempre pra si mesma, numa tentativa desesperada de se encaixar.
Não funcionava.
O contato do piso gelado do banheiro com seus pés descalços fez com que um arrepio fino percorresse sua coluna vértebra por vértebra, os ombros que já eram pesados demais se curvaram ainda mais. Agarrou-se a pia em uma batalha caótica para se manter em pé. Nunca fora tão difícil, mas ela persistia.
Uivava.
Lembrou das amigas dizendo que admiravam sua força, e um esboço de sorriso ameaçou aparecer. Achava divertido esse engano geral a seu respeito, essa imagem totalmente desconexa que ela construíra pouco a pouco pra se proteger dos respingos de lama que vinham de todo lado em sua direção.
Não era forte.
Também não era má, detestava quando as pessoas diziam isso a seu respeito. Só deixava claro o quanto elas eram incapazes de enxergá -la de verdade, era um julgamento tão óbvio que já se tornara monótono.
Mas não era boa.
Encontrou seus olhos perdidos no espelho. Eram dois grandes círculos perturbadores. Não gostava nada deles, sabia que todos os demônios que atormentavam seus pensamentos transpareciam por aquelas órbitas delatoras.
Começou a tremer. Os dedos foram se soltando um a um da borda úmida da pia, e as pernas começaram a fraquejar.
Queria convencer a si mesma que era feliz, que a vida era boa e valia a pena. Que podia ser bonito.
Um sorriso cheio de borboletas.
Respirou fundo e deixou que as lágrimas invadissem o seu rosto abundantemente. Era ela ali parada chorando no espelho, um alguém que quase ninguém via, tão cheio de dor que já se tornara vazio.
Silêncio.
A mulher ali parada, lavou o rosto pra remover os vestígios de verdade perdidos na sua pele. Penteou os cabelos, se maquiou. Escolheu dentro de si qual cara usar naquele dia chuvoso. Optou pela moça alegre e sorridente que era o seu personagem preferido em momentos assim. A alegria contrastava com a chuva.
Acendeu um cigarro.
Olhou para a garota bonita no espelho que não era ela e sorriu. Ficou feliz de enganar a si mesma.
Saiu de casa apressada pra não perder a coragem de viver. Se lançou na chuva e pode sentir por um momento que a menina de cabelos revoltos voltara. Mas foi só um instante de distração. A mulher desapareceu na multidão.
Não era boa,
nem má.
Era só uma menina assustada sentada no canto da sala, sozinha, tentando colar os cacos de si mesma com um punhado de cola.
Jô Stella
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