Chovia dentro e fora dela, e como se os pingos pesados de chuva e lágrimas não fossem suficientes, também havia o frio. Ela o sentia invadir lentamente seu corpo apesar de estar agasalhada, mas o gelo parecia ter encontrado uma brecha na velha ferida que agora sangrava no seu peito.
Foi quando arrumava as coisas para mudança, decidiu jogar fora tudo que não fosse necessário e, nessa de limpar a vida encontrou os restos do amor jogados no fundo de uma caixa de sapatos. Primeiro foi o susto, desses que agente toma quando é pego fazendo algo errado, depois o receio, e finalmente ela se rendeu a tentação das lembranças e pegou a carta.
Foi em uma quarta-feira, ele lembrava bem daquele dia, mesmo depois de anos ainda podia ver a dor invadir o rosto que mais amara quando disse que iria partir. Viu o desespero transbordar em lágrimas, e as lágrimas se transformarem em súplica, e viu a si mesmo virando as costas e saindo, sem olhar para trás.
A chuva sempre lhe lembrava ela, se conheceram assim, em uma tempestade de verão. Fechou os olhos e a moça de vestido azul toda molhada veio correndo em sua direção. Ela estava descalça, com a sandália arrebentada na mão, o cabelo vermelho espalhava água por toda parte, e quando ela parou ao seu lado no ponto de ônibus e sorriu, ele pensou que nunca tinha visto nada tão belo em toda sua vida.
Foram dez anos juntos e agora cinco separados, o papel amarelado que tinha nas mãos era testemunha do tempo, e ela sentia o peso da dor aparentemente superada ao manusear aquela folha cheia de digitais de outra época, quando o sol brilhava dentro dela, tempos de juventude e promessas, olhando agora pra trás tudo parecia apenas um sonho bom.
Tinha lido apenas algumas linhas, a chuva lá fora aumentava e a dor se tornara insuportável. Decidiu fazer um chá. Foi até a cozinha, mas não se deu conta do caminho, estava imersa em si mesma, nunca tinha se sentido tão só desde que ele partira. Viu seu reflexo no vidro do fogão enquanto a água fervia, percorreu cada uma das linhas que vincavam seu rosto cansado, tentando entender o que realmente tinha acontecido com eles.
Na tela do computador estava à foto de uma jovem de vinte e poucos anos de cabelos vermelhos. Não era nela que ele pensava agora, pelo menos não em princípio, mas tinha sido por ela que ele largara o amor da sua vida. De fato quando a conheceu reparou que se parecia muito com sua esposa quando tinha a mesma idade. Olhou para si mesmo e se achou mais velho do que realmente era. Como pode acreditar que uma moça daquelas se interessara realmente por ele?
Depois de muito tempo juntos um casal gira em torno de uma dança coreografada, os dias se repetem com poucas variações, e às vezes esquecemos o amor. Ele esqueceu, e quando viu aquele rosto jovem e familiar sentiu a magia voltando. Mas foi apenas um delírio, como uma noite de bebedeira, e quando passou só restou ressaca e solidão.
Agradeceu por não ter tido filhos, seria mais difícil se os tivesse, sem eles não sobrava vínculo. Já tinha tomado o chá e agora lia as últimas linhas de juras de amor vencidas, perdidas no tempo de uma felicidade que não conhece mais. Agora se lembra por que resolveu vender a casa, não se vê naquelas paredes, elas estão impregnadas de alegrias e tristezas de uma pessoa que não é mais ela. A dor muda agente deixa marcas vivas de uma vida morta. Precisa partir.
Resolveu voltar a encaixotar o que faltava, e foi vivendo suas dores e alegrias antigas em cada detalhe aparentemente insignificante, mas que secretamente todos nós sabemos que são os mais importantes. Sentiu toda a juventude percorrer suas veias velhas, e o amor, invadir tudo até que não restasse um pedaço de si que não amasse intensamente. Quando fechou a ultima caixa tudo se foi, e ela se viu sentada sozinha em uma sala estranha e vazia.
Seu olhar ia da foto no monitor para sua própria imagem no espelho, sentia o peso dos anos em cada detalhe novo que seus olhos descobriam. Nesses cinco anos ainda não tinha conseguido entender como podia ter se deixado levar tão facilmente por uma ilusão. Amava sua ex-mulher, e somente a ela tinha amado em sua vida. Sentia falta daquele rosto familiar, das pequenas coisas que desprezara um dia, queria voltar, pedir perdão, mas faltava coragem para encarar seus olhos novamente, eles mostravam uma tristeza profunda da última vez que os viu, e ele tinha medo de encará-los.
Acordou assustado, tinha dormido na frente do computador, seu corpo doía e a casa cheirava a cigarro.Tomou um banho demorado e resolveu sair pra andar um pouco. Era um sábado gelado, mas a chuva tinha passado, parou na padaria para um café. O sorriso dela ainda estava lá, e era tudo que conseguia ver. Voltou para rua, continuou andando, observando o mundo, tudo estava mudando, ele estava mudado, e mesmo que se negasse a aceitar, sabia muito bem aonde seus passos iriam levá-lo.
O caminhão de mudança chegou cedo. Ela pedira que fosse assim, queria começar a vida nova com o amanhecer. Não demorou muito até que todas as coisas fossem retiradas da casa. Depois que a mudança saiu, ela ainda se demorou um momento olhando a casa em que vivera tantos anos. Tinha acabado suas lembranças estavam guardadas em caixas e agora ela tinha espaço livre para novas experiências, entrou no carro satisfeita, sentindo uma leveza que só aqueles que sofreram suas dores até não restar mais nada podem entender.
Quando ele chegou ainda pode ver seu carro se afastando. Foi até o portão e notou o vazio. Não havia nada lá, eram apenas paredes de concreto sem vida, um esqueleto de lembranças prestes a desmoronar. Logo outras pessoas dariam vida a casa novamente, mas agora não tinha nada, ela não estava mais lá. Voltou sozinho pela rua, muito devagar, torcendo pra que talvez caísse uma tempestade e uma moça de vestido azul corresse sorrindo na sua direção. Mas o verão já tinha passado, e tudo que restava agora era a chuva constante e fina de um inverno gelado.
Jô Stella
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