No dia que completou um mês em Ibitanga Ernesto acordou mais cedo que o normal, ainda não tinha se acostumado com o ritmo do interior. Enquanto preparava um café amargo, pensou na possibilidade de voltar para a capital e lamentou não ter dormido um pouco mais no seu dia de folga.
- Maldita insônia que me atacou hoje- disse pra si mesmo enquanto dava uma espiada no relógio.
Cinco da manhã, já que estava acordado podia aproveitar para ver o sol nascer, não se lembrava da última vez que tinha feito isso. A vida corrida das grandes cidades não permite que as pessoas se ocupem com essas miudezas. Caminhou lentamente até a janela, caneca na mão, sono pesando no corpo, abriu a veneziana com cuidado, pra não fazer barulho e deixou que o ar da madrugada invadisse seus pulmões. Estava imerso em si mesmo quando uma imagem chamou sua atenção.
Um homem caminhava pela rua solitário, Ernesto o reconheceu, era seu Joaquim, o rabugento, um velho que com mais de oitenta anos que passava o dia sentado na praça central resmungando e comendo amendoins. Mas agora quem passava pela janela de Ernesto era uma versão totalmente diferente daquele velho chato de quem todos faziam troça em Ibitanga. Ia calado, cabeça baixa, como se naquele momento fosse o único ser vivo do universo.
Ernesto reparou que suas rugas pareciam mais fundas, eram feridas rasgadas pelo tempo, contrastando com o terno alinhado que o velho usava, e principalmente com o buquê de rosas brancas amarradas por uma fita rosa de cetim que o rabugento carregava com um cuidado cerimonioso.
O que fazia aquele maluco, tão desgrenhado e vulgar durante o dia se transformar em um senhor distinto e elegante na madrugada? Intrigado Ernesto largou a caneca ainda cheia de café no parapeito da janela e quando deu por si, já estava na rua de pijamas, seguindo o velho de longe. Na verdade não era tão difícil assim segui-lo, seu Joaquim estava tão concentrado que Ernesto achou que nem se as estrelas começassem a cair aquele homem esboçaria alguma reação. Já ele estava experimentando uma sensação completamente nova, se sentia um detetive perseguindo um adúltero que se esgueira no meio da noite para encontrar a amante, seu coração batia acelerado, e apesar do frio, o suor escorria pelo seu rosto.
Imaginou que o velho fizesse parte de alguma seita secreta, magia negra talvez, mas mudou de idéia rápido, lembrando que o buquê que o homem carregava era angelical de mais para um feiticeiro. Resolveu cogitar outras possibilidades, tinha pensado na amante anteriormente, só que isso também não se encaixava, que mulher suportaria um grosseirão como aquele? Uma prostituta? Impossível, não se leva flores para as damas da noite, elas preferem maços de dinheiro a buquês de rosas.
- Deve ir à igreja – pensou – pedir perdão pelos palavrões que distribui gratuitamente na praça. E já começava a se conformar com essa idéia quando viu o velho entrar no cemitério. Ernesto esperava por qualquer coisa menos aquilo, nunca ouvira dizer que o rabugento tivesse algum parente ou amigo por quem chorar a morte, sempre o vira como uma alma solitária vagando pelo mundo para incomodar os outros por puro prazer.
Ficou espiando de trás de uma árvore e viu quando o velho colocou as flores sobre um túmulo antigo e depois ficou ali parado cochichando baixinho, parecendo um fantasma no meio daquelas tumbas, e depois de um instante que pareceu uma eternidade disse em alto e bom som:
- Estou chegando Isabel – e saiu andando sem olhar pra trás.
Ernesto resolveu olhar o túmulo de perto, e pode ver na lápide o retrato antigo de uma jovem e os seguintes dizeres:
“Isabel Almeida, esposa amada, seu esposo Joaquim lhe promete fidelidade e pede que guarde para ele um lugar ao seu lado, esteja onde estiver.”
Uma semana depois , quando Joaquim morreu de um infarto fulminante além do padre e do coveiro, só um rapaz silencioso fez questão de acompanhar o enterro.
Jô ;)
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