Ela entrou no mar com a certeza que não voltaria.
Foram passos lentos, pesados como a dor que ela trazia, profunda como o oceano.
A água invadia seus pulmões e ela achava engraçado aquilo arder assim. - pior do que cigarro - pensou. Ainda pensava.
Diabos porque era tão difícil calar uma mente? Enquanto cada pedaço do seu corpo morria submerso seus pensamentos ainda vagavam incertos, por lembranças que ela queria apagar.
Desejava ardentemente a paz da morte. Nunca mais relações vazias e destrutivas, tinha cansado de sentir. Passara uma vida toda se mutilando, destruindo pouco a pouco cada pedaço bom que pudesse haver em si, cada amizade verdadeira que surgia.
Não conseguia se aprofundar, é doentiamente doloroso deixar que alguém te veja assim, despido de máscaras e pudores quando se tem tanta dor escondida por trás dos sorrisos.
Sentiu os braços dormentes e um leve formigar na ponta dos dedos. Abriu os olhos por um instante e pode ver as pessoas na praia, tinham notado o afogamento, precisava morrer logo antes que tentassem salvá-la.
Todo mundo tem o direito de se destruir, livre arbítrio permite essas coisas. Abriu a boca e mergulhou fundo, esperava não subir mais, queria ser devorada pelos peixes. Pensava neles comendo cada pedacinho do seu corpo morto e sorriu ao se imaginar livre daquele fardo.
Começava a perder a consciência, imagens desconexas da sua vida passavam diante dos seus olhos. - morrer era como todos diziam, lembranças e luz - uma última irônia para alegrar um moribundo.
Todo o nojo e desprezo que tinha por si mesma veio à tona de uma vez, estavam ali suas escolhas erradas e o ódio por todos aqueles que a fizeram sofrer, que brincaram com ela. Sua alma ia enfim explodir envolta em dor e água. Foi o ápice dos sentimentos.
Depois só a luz irônica.
E paz.
Acordou dois dias depois em um leito de hospital. Viu seu reflexo no espelho do quarto e chorou silenciosamente como só aqueles que não conseguem se libertar da vida podem chorar.
Quando as lágrimas secaram fechou os olhos e voltou a dormir com a certeza triste que voltaria a acordar.
Jô Stella
Jô, vc tá dramática, profunda!!! Vixe maria.
ResponderExcluirZidi linda, acho que são os personagens densos e dramáticos que eu tenho encarado nesses dias... fazem a gente entrar em contato com sentimentos profundos...
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